quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Igreja Ortodoxa - Série Religiões

A Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, também chamada de Igreja Ortodoxa ou Igreja do Oriente, surgiu no contexto histórico conhecido como o primeiro Grande Cisma da Igreja, resultado das divergências entre as igrejas de Roma (Igreja Católica Apostólica Romana) e de Constantinopla, que remontam à divisão entre as capitais, respectivamente do Império Romano do Ocidente e do Oriente, na era de Justiniano I (565). No bojo desse processo, muitos cristãos entendiam que a capital religiosa devia coincidir com a capital civil e, na época, a falta de transporte acessível e comunicação tornavam intransponíveis as diferenças de ordem local.

Igreja Ortodoxo

Portanto, a cisão se deveu mais a fatores políticos do que propriamente teológicos. Do ponto de vista político, a igreja de Constantinopla se recusava a aceitar a autoridade do Papa como chefe de todos os cristãos. Do ponto de vista teológico, algumas diferenças de culto e confissão foram causadas por questões linguísticas relativas à diversidade da língua em relação ao entendimento das escrituras sagradas. Daí que a tradução, muitas vezes equivocada, dos textos doutrinais e litúrgicos do grego para o latim e vice-versa engendrou discórdias e incompreensões que ultrapassaram a esfera da exegese bíblica e da filosofia cristã.

No ano de 867, sucedeu a primeira ruptura durante o patriarcado de Fócio. O cisma oficial ocorreu em 1054 quando Miguel Cerulário era o Patriarca de Constantinopla. Recusando-se a reconhecer a autoridade do Papa, Cerulário fechou as igrejas latinas em sua cidade e na Bulgária, passando a repreender não só o Papa mas também os bispos romanos por certas práticas consideradas heterodoxas, como, por exemplo, usar pão não fermentado para a Eucaristia, jejuar no sábado, comer carne com sangue e, sobretudo, porque a igreja de Roma ensinava que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho (Cláusula Filioque).

Assim, a várias igrejas orientais, que possuíam um rito próprio caracterizado por especificidades étnicas e geográficas e que seguiam o patriarcado de Constantinopla, Jerusalém, Antioquia e Alexandria, também aceiram a separação.

Seguindo o mesmo princípio, Moscou se colocou à frente de uma igreja autóctone (1589), seguida pela Grécia, em 1850, Bulgária, em 1870, Sérvia, em 1879, e Romênia, em 1885.

Houve, no entanto, cisões dentro do cisma, constituindo igrejas dissidentes: nestorianos (Iraque e Síria) e monofisistas (Igreja Copta, Igreja da Etiópia, Igreja Jacobita-Síria, Igreja Malabar-Jacobita e a Igreja Armênia).

A doutrina da Igreja Ortodoxa é quase idêntica a de Roma (Sacramentos, Sacerdócio, Eucaristia). Todavia, os sacerdotes ortodoxos não têm celibato obrigatório, podendo se casar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Paul Anka - Pioneiros do Rock'n'Roll

Paul Anka, nascido em 30 de julho de 1941, Ottawa, Canadá, se notabilizou como cantor, compositor e ator, destacando-se como intérprete no estilo de Frank Sinatra e Tony Bennett.

Paul Anka

O mais velho dos filhos de uma família de origem sírio-libanesa, passou a infância ajudando na cozinha do restaurante árabe de seu pai. Mas, desde muito cedo, o sonho do menino eram os palcos.

Ao completar 15 anos, Anka foi morar com um tio em Los Angeles, para tentar a sorte na carreira de cantor nos EUA. Em busca de uma grande chance, mudou-se para Nova Iorque, onde travou contato com Don Costa, um produtor da ABC/Paramount Records, que concordou em ouvir suas composições ao piano. Poucos dias depois, o pai viajava a Nova Iorque para assinar um contrato em nome de seu filho, que ainda era menor de idade.

A gravadora decidiu lançar “Diana", uma canção que Anka escreveu inspirado em uma garota pela qual era apaixonado em Ottawa. Em poucas semanas, a música do jovem de 16 anos estoura e torna-se a mais tocada no mundo. "Diana" vendeu mais de 20 milhões de cópias e Paul Anka se tornou um ídolo adolescente.

Outro destaque foi "My Way", originalmente uma canção francesa ("Comme d'habitude"), de autoria de Claude François. Paul Anka comprou a canção e escreveu uma versão em inglês, famosa na interpretação de Frank Sinatra.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Demócrito e o átomo - Nonas Filosóficas

Os fundadores da atomística são Leucipo e seu discípulo Demócrito. Não possuímos notícias seguras acerca do primeiro.

Pintura de Johannes Paulus Moreelse

Demócrito, da costa Trácia de Abdera (460-370), empreendeu uma grande viagem de investigação, e tratou nos seus inumeráveis escritos de quase todos os ramos da ciência, desde a matemática e a física até a ética e a política. (Destes escritos, assim como dos escritos dos seus outros predecessores, só nos restam alguns fragmentos, casualmente citados em autores posteriores).

Partilha o princípio fundamental dos eleáticos, segundo o qual a matéria é quantitativa e qualitativamente invariável. Partindo deste princípio, Anaxágoras admitira tantas espécies de substâncias primordiais quantas espécies diferentes de corpos a percepção sensível nos mostra. Os atomistas, por seu lado, admitem a hipótese contrária: a uma única espécie de matéria ou substância fundamental. Esta matéria tem uma única propriedade: a de encher o espaço, a impenetrabilidade. É composta de inúmeros corpúsculos móveis, muitíssimos pequenos (e, portanto, imperceptíveis). São indivisíveis, isto é, átomos; e diferencia-se apenas quantitativamente pela forma (de foice, etc.), grandeza, posição, ordem; são, além disso, inatos e imperecíveis. O ser sólido e simples dos eleáticos se pulverizou em inumeráveis partículas. Ao passo que para os eleáticos o ser é idêntico ao material (o “cheio”), para os atomistas o vazio possui igualmente ser, isto é, existe igualmente o espaço vazio, no qual os átomos se movem eternamente em todas as direções. A diversidade de resistência que os corpos oferecem ao movimento de outros corpos procede de conterem qualidades diferentes de espaço entre os seus átomos. As diferenças entre os diversos estados físicos e as qualidades sensíveis da matéria são explicadas com igual simplicidade. No seu pormenor, estas explicações são sem dúvida pueris muitas vezes, como quando se diz que o sabor amargo provém dos átomos agudos, e o sabor doce de átomos redondos. Porém, o princípio em que todas elas se inspiram é exato: a verdadeira (objetiva) realidade deve ser pensada de tal forma que se “salvem” as suas aparências (fenômenos); quer dizer, não se deve depreciar como vã ilusão (como fazem os eleáticos), mas deve se dar uma explicação dela.

É além disso digno de nota o fato de se ter estabelecido, com a doutrina dos átomos, uma hipótese que (embora não fosse comprovada por uma percepção direta) se mostrou altamente frutuosa na ciência física até os nossos dias (1). Pedro Gassendi (1592-1655), que introduziu os átomos na nova ciência da natureza, partiu do estudo de Epicuro, o qual, a seu turno, já desenvolvera as doutrinas de Demócrito. Mas, sobretudo, a nova ciência da natureza partilha com os atomistas a tendência fundamental para reduzir a variedade qualitativa do mundo, percebido pelos sentidos, a diferenças quantitativas (e, portanto, matematicamente determináveis), de grandeza, forma, posição, movimento, ou, mais exatamente, pretende estabelecer relações fixas e regulares entre ambas as ordens. Só assim é possível uma ciência exata da natureza.

Com isso fica dito que as propriedades sensíveis não pertencem todas às coisas de igual título, ou da mesma maneira (embora admitamos que estejam todas objetivas). Grandezas, formas, movimentos, conjuntos, pertencem às coisas em si mesmas; as cores, sons, sabores, cheiros, etc., só pertencem às coisas enquanto estão em relação com os nossos órgãos dos sentidos, e com a nossa consciência, isto é, com a nossa subjetividade.

A doutrina dos atomistas preparou, portanto, aquela distinção entre as propriedades (pertencentes às coisas “absoluta” ou "relativamente") que estabeleceram explicitamente os fundadores da ciência natural (Galileu, Descartes, Huyghens) e que se tornou popular com Locke (sob o nome de qualidades “primárias” e "secundárias") (1). Pode ver se também nesta doutrina a distinção entre o mundo que “aparece” aos sentidos, eu outro mundo “verdadeiro” (recordando que para Demócrito o pensamento só se distingue dos sentidos pela sua maior precisão e finura). De fato, porém, não se trata de dois mundos, mas deu um só, que umas vezes se manifesta à nossa percepção sensível, e outras, à base dos fenômenos menos sensíveis, apreendido pelo pensar.

Demócrito explica a origem do mundo supondo que os átomos se moviam a princípio no espaço vazio em todas as direções, e depois chocaram uns contra os outros devido às suas formas diversas (com arestas, ganchos, concavidades, etc.), e se ligaram entre si em massas maiores ou menores. Resultaram daqui, a princípio, movimentos em torvelinho que só tem lugar entre átomos de igual forma que tamanho (partículas de água e de ar com outras de água e de ar, respectivamente). Demócrito concebeu, com efeito, a ideia genial de que existe uma infinidade de sistemas cósmicos que se distinguem pela sua grandeza e pelo estágio de sua evolução: uns, em vias de formação; outros, em vias de destruição. Somente, alguns destes mundos não têm habitantes, animais nem plantas, por carecerem da umidade necessária para alimentação.

E nesta ingente engrenagem universal, “nada acontece ao acaso, mas tudo devido a uma razão, sob a pressão de uma necessidade” (2). Deve se, pois, dar à concepção do mundo de Demócrito o nome de “mecanismo”, pois que repele energicamente a hipótese teleológica (3) de um Nous  (Anaxágoras) ordenador do mundo de harmonia com uma finalidade.

É duvidoso que se possa pensar a natureza inteira como puro mecanismo. Demócrito não pôde se libertar inteiramente da ideia primitiva segundo a qual o mundo inteiro é animado. Por isso, só de uma forma restrita se pode dar o nome de “materialismo” a esta concepção. Tampouco encontramos, nela, em toda a sua pureza, o conceito de uma matéria completamente inanimada, puramente passiva, que só de fora recebe o movimento; ainda atua sobre ela a ingênua ideia hilozoísta (§ 2). Os átomos são assim, para Demócrito, os suportes dos acontecimentos psíquicos, especialmente os pequenos, redondos, lisos e móveis, que são os que melhor correspondem à rápida torrente dos pensamentos e dos sentimentos. Procedem do mundo exterior, entram e saem pela respiração, e são destruídos com a morte. Portanto, não existe para Demócrito sobrevivência da alma individual no além-mundo.

Mas também deparamos nestes primeiros “materialistas” com o fato, hoje desconhecido, de que o materialismo teórico (isto é, a crença em que todo o real é material) não necessita de condicionar o materialismo “ético” ou “prático” (a crença em que só tem valor os prazeres e os bens sensíveis e materiais). Pois, embora as concepções teóricas de Demócrito (especialmente a desdivinização do mundo) tivessem encontrado também na antiguidade inimigos violentos, não se tentou contudo diminuir nunca a delicadeza de sentimentos e a admirável grandeza de alma deste sábio. Tal como despoja a terra e o nosso sistema solar de sua posição privilegiada, assim também o põe o seu famoso “sorriso” aos turbulentos e impulsos do homem e à tendência para se considerar como o mais importante. Igualmente não poder dar nada melhor ao ser humano do que a paz interior, a “alegria” (euthymia) que liberta do império dos afetos e da angustiosa a crença nos deuses, nascida unicamente do temor perante os grandiosos fenômenos cósmicos. “Felicidade e desdita se encontram na alma”. “Quem procede injustamente é mais infeliz do que quem padece injustamente”. “Nem só o que vence os seus inimigos é viril, mas também aquele que é senhor dos seus prazeres”. “Todos os países estão abertos ao sábio, porque a pátria da sua alma nobre é o mundo inteiro".

(1) Devemos recordar aqui que Demócrito explica o fato de vermos as coisas sem as tocarmos com os olhos, supondo que existem nas coisas finíssimas partículas que naqueles penetram.

(2) Deste modo se formula pela primeira vez explicitamente a lei de causalidade (instintivamente sempre foi válida e suposta pelos seus predecessores). Diz ele ainda: “Os homens forjaram um fantasma com o acaso, para embelezar a sua própria ignorância”. Portanto, segundo ele não existe “acaso” nenhum.

(3) Da palavra grega thêlos – fim.

(August MESSER, “História da Filosofia”, Editorial Inquérito: Lisboa, 1946 - obra em domínio público).

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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Max Weber e a sociologia em Homero

O poeta grego Homero teria nascido em Esmirna ou na ilha de Quios, no século IX a.C., e é tido como o autor da Ilíada e Odisseia. Sua vida está envolta por inúmeros mistérios e lendas, inclusive, a de que era cego. A poesia homérica era recitada em quase todas as ocasiões festivas, constituindo-se fundamentalmente em uma referência étnica, estética e ética da sociedade grega. Suas epopeias constituem o mito fundador da Grécia, perpassando por toda Era Helenística. Além de estabelecerem um marco inicial da literatura ocidental, os poemas também formam um importante registro de fatos históricos da Grécia arcaica, evidentemente, sob a perspectiva da religião e do mito. O universo mitológico de Homero, enquanto sistematização pedagógica, será objeto de oposição, principalmente, pela filosofia socrático-platônica, do século V a.C. ao século IV a.C. Alguns estudiosos negam que Homero tenha existido de fato; outros acreditam que ele compilou poesias populares que eram transmitidas oralmente de geração após geração. A despeito das controvérsias em torno da pessoa de Homero, toda a poesia épica ocidental, da Eneida, de Virgílio, aos Os Lusíadas, de Camões, ou ao Ulisses, de Joyce, entre outros autores, tem em sua figura uma fonte de inspiração.

Max Weber (Karl Emil Maximilian Weber) foi um economista, jurista e sociólogo alemão do limiar do século XX, sendo considerado, juntamente com Karl Marx e Émile Durkheim, um dos fundadores das ciências sociais e cujas obras fundamentais são: A Ética protestante e o espírito do capitalismo (1905), A política como vocação/A ciência como vocação (1919), A sociologia da religião (1921), Economia e sociedade (vol. 1 e vol. 2) (1922), Metodologia das ciências Sociais (1922) e História geral da econômica (1923). Wber iniciou sua trajetória intelectual como um marxista mas, com o tempo, acabou por assumir uma posição metodológica radicalmente contrária. Para Weber, a sociologia deve compreender a ação social, a partir da interpretação da ação individual em consonância com outros indivíduos, e, assim, explicar os nexos causais e efeitos sobre a sociedade. Por isso, a sociologia weberiana é denominada compreensiva, isto é, baseada na compreensão das ações dos indivíduos no âmbito das esferas sociais, tendo em vista a reconstituição do sentido subjetivo original da ação social através das formas de relação entre os sujeitos. O método deve estabelecer tipos ideias que devem se ajustar a realidade social, ainda que de maneira relativa. Ao nível da análise categórica, Weber formulou quatro tipos de ação sócia: 1) ação social racional com relação a fins; 2) ação social racional com relação a valores; 3) ação social afetiva; 4) ação social tradicional. Com base nessa tipologia, Weber desenvolve sua famosa teoria da dominação, na qual o poder se legitima por meio de três formas fundamentais: carismática ou afetiva; tradicional ou consuetudinária; e legal ou burocrática. Há uma certa teleologia na sociologia werberiana, na medida em que postula uma tendência à racionalização progressiva da sociedade até a modernidade. Daí a importância que ocupa a religião na obra de Weber. Para se contrapor a Marx, realizou estudos de história comparada para descobrir o que havia de originalmente peculiar na sociedade ocidental para explicar o surgimento do capitalismo. Weber identifica nas seitas do protestantismo esse diferencial: um ascetismo intramundano que permitiu ao devoto religioso, graças ao conceito de obra cristã, isto é, o cumprimento da vontade Deus, acumular capital para depois investi-lo. Max Weber também desempenhou uma importante participação política nas conferências do Tratado de Versalhes (1919) e na Constituição da República de Weimar (1919).

Ilíada e Odisseia

Sociologia em Homero

A cultura micênica na metrópole grega pressupunha, pelo menos em Tirinto e Micenas, uma realeza patrimonial baseada em trabalho forçado, de caráter oriental, ainda que de dimensões bem menores. Sem a utilização dos serviços obrigatórios dos súditos, são inimagináveis as grandes construções, sem par até a época clássica. Nas margens do círculo da cultura helênica daquela época, do lado do Oriente, parece até haver existido uma administração que usava um sistema gráfico próprio, no estilo egípcio, para fazer contas e organizar listas, tratando-se, portanto, de uma espécie de administração de armazém de caráter patrimonial-burocrático, enquanto mais tarde, ainda na época clássica, a administração de Atenas realizava-se quase completamente de forma oral, e não escrita. Da mesma maneira que aquele sistema gráfico desapareceu, esta cultura, baseada em trabalho forçado, também se extinguiu. A Ilíada menciona em seu catálogo de navios reis hereditários que dominam extensos territórios, dos quais cada um abrange várias localidades mais tarde conhecidas como cidades, originalmente todas elas concebidas como castelos, estando um soberano, como Agamêmnon, disposto a conceder algumas delas em feudo a Aquiles. Em Tróia, o rei tinha ao seu lado, como conselheiros, os anciões de casas nobres, livres do serviço militar devido à idade. Heitor é considerado o rei guerreiro, enquanto se recorre a Príamo para fechar contratos. Um documento escrito, mas talvez apenas composto de símbolos, é mencionado apenas uma única vez. De resto, todas as condições excluem completamente a existência de uma administração baseada em trabalho forçado ou de uma realeza patrimonial. Esta tem caráter gentilício-carismático. Mas também o forasteiro Enéias pode nutrir esperanças de assumir o cargo de Príamo depois de matar Aquiles, pois a realeza é considerada uma "dignidade" com caráter de cargo, e não uma propriedade. O rei é o comandante do exército e participa no tribunal junto com os nobres, é representante diante dos deuses e dos homens, dotado de terras reais, exercendo, porém, particularmente na Odisseia, um poder semelhante ao de um chefe local, baseado em influência pessoal, não em autoridade regulamentada. Também a expedição guerreira, quase sempre marítima, tem para as linhagens nobres mais o caráter de uma aventura empreendida pelo séquito do que o de uma campanha obrigatória: os companheiros de Ulisses são chamados hetaíroí, bem como mais tarde o séquito real macedônico. A longa ausência do rei não é considerada uma fonte de inconvenientes sérios: em Ítaca, já não existe mais rei nenhum. Ulisses deixou sua casa aos cuidados de Mentor, que nada tem a ver com a dignidade real. O exército é um exército cavalheresco, os duelos decidem a batalha. A infantaria perde toda importância. Em algumas partes dos poemas homéricos, aparece no mercado político das cidades: se Ismaros é chamado polis, isto poderia significar "castelo", mas em todo caso trata-se do castelo não de um indivíduo, mas dos Cícones. No escudo de Aquiles estão sentados os anciões - dos clãs de honoratíores que se destacam pela propriedade e pelos méritos militares - no mercado e pronunciam sentenças; o povo, como plateia do tribunal, acompanha com aplauso os discursos das partes. A queixa de Telêmaco torna-se objeto de uma discussão, organizada pelo arauto, entre os honoratíores aptos para o serviço militar. Os nobres, inclusive os reis, dependendo das circunstâncias, são senhores territoriais e proprietários de navios, saindo para a batalha em carros de guerra. Mas somente quem reside na polis tem participação no poder. O fato de que o rei Laertes se retirou à sua quinta significa que está aposentado. Como também entre os germanos, os filhos das linhagens de honoratíores participam como séquito (hetaíroí) nas aventuras de um herói - na Odisseia, nas do filho do rei. Entre os feacos, a nobreza atribui a si mesma o direito de fazer o povo participar nas despesas para os presentes aos hóspedes. Em nenhum lugar se diz que todos os moradores do campo eram considerados dependentes ou servos dos nobres residentes na cidade, apesar de nunca serem mencionados camponeses livres.

 

O tratamento da figura do Tersites prova, em todo caso, que também o guerreiro comum - isto é, que não sai para a campanha no carro de guerra - ousa, ocasionalmente, falar contra os senhores, só que isto é considerado atrevimento. Mas também o rei faz trabalhos domésticos, monta sua cama e cava o jardim. Seus companheiros guerreiros remam eles mesmos. Por outro lado, podem os escravos comprados esperar obter um kleros: ainda não existe, como mais tarde em Roma, a extrema diferença entre os escravos comprados e os clientes com terras concedidas. As relações são patriarcais, a economia de subsistência satisfaz todas as necessidades normais. Os navios próprios servem para a pirataria, o comércio é passivo, cujos portadores ativos são, naquela época, ainda os fenícios. Além do "mercado" e da residência urbana da nobreza, existem dois fenômenos importantes: por um lado o agón, que mais tarde dominará a vida inteira, nascido, como é natural, do conceito de honra cavaleiroso e do treinamento militar dos jovens nos campos de exercício. Externamente organizado, encontramo-lo, sobretudo, no culto fúnebre aos heróis de guerra (Patroklos). Ele domina já naquela época a condução da vida da nobreza. Por outro lado, apesar de toda deísídemonía, há a relação totalmente despreocupada com os deuses, cujo tratamento poético mais tarde Platão sente como constrangedor. Esta falta de respeito da companhia heroica somente podia nascer como consequência de migrações, particularmente as ultramarinas, em regiões onde não tinham que conviver com antigos templos e túmulos. Enquanto a cavalaria aristocrática da polis de linhagens históricas falta nos poemas homéricos, parece que mencionam, o que é muito estranho, a luta dos hoplitas, mais tarde disciplinada e organizada em fileiras: uma prova de que épocas diferentes deixavam suas marcas na poesia.

 

Até o desenvolvimento da tirania, o tempo histórico conhece, fora de Esparta e poucos outros exemplos (Cirene), a realeza gentílfcío-carisrnática somente em resíduos ou pela lembrança (isto em muitas cidades da Hélade e na Etrúria, no Lácio e em Roma), sempre como realeza sobre uma única polis, também então de caráter gentilício-carismático, com competências sacras, mas, de resto, com exceção de Esparta e da tradição romana, dotada apenas de privilégios honoríficos diante da nobreza, às vezes também chamada "reis". O exemplo de Cirene mostra que também aqui o rei devia a fonte de seu poder, seu tesouro, ao comércio intermediário, seja na forma de comércio próprio, seja na de controle e proteção remunerados. Ao que parece, o monopólio do rei quebrantou a luta cavalheiresca, com sua autonomia militar das linhagens nobres, que mantinham carros de guerra e séquitos e possuíam navios próprios, depois de haverem decaído também os grandes impérios orientais - tanto o poder egípcio quanto o hitita, com as quais mantinham relações, e ainda não haverem surgido outras grandes realezas, como o reino lídio. Isto é, depois de acabar o comércio monopólico e o Estado baseado em trabalho forçado dos reis orientais, ao qual correspondia em pequena escala a cultura micênica. Esta ruptura do fundamento econômico do poder real possibilitou, provavelmente, também a chamada migração dórica. Iniciaram-se, então, as migrações dos cavaleiros piratas em direção ao litoral da Ásia Menor, onde Homero ainda não conhece povoados helênicos e naquela época ainda não existiam fortes associações políticas e, ao mesmo tempo, começou o comércio ativo dos helenos.

 

As notícias históricas que começaram naquela época mostram-nos a típica cidade aristocrática da Antiguidade. Quase sempre era uma cidade litorânea: até a época de Alexandre e das guerras dos samnitas, não havia nenhuma polis a mais de uma jornada do mar. Fora do território da polis existia somente a convivência em aldeias (xwllcn) com uniões políticas pouco estáveis de "tribos". Uma polis dissolvida por iniciativa própria ou por inimigos tem seu oikos desfeito e os membros distribuídos em várias aldeias. Ao contrário, o processo de sinecismo era considerado o fundamento real ou fictício da cidade: trata-se da convivência, iniciada às ordens do rei ou em virtude de um acordo de várias linhagens dentro ou em volta de um castelo fortificado. Este processo também não era totalmente desconhecido na Idade Média: assim, no caso de Áquila, descrito por Gothein, ou na fundação de Alexandria. Mas sua essência apresentava-se de forma mais específica na Antiguidade do que na Idade Média. Não era absolutamente essencial a convivência efetiva permanente: como as linhagens medievais, as da Antiguidade continuavam, em parte, residindo em seus castelos rurais ou pelo menos possuíam - e isto constituía a regra - casas de campo, além de sua sede urbana. (...)

 

Fragmento extraído do Vol. 2 de WEBER, Max. “Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva”. Brasília: Editora UNB, 2009.


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Cristianismo - Série Religiões

O cristianismo é uma das grandes religiões monoteístas abraâmicas, tendo por origem, portanto, a tradição judaica. Porém, o cristianismo representa uma ruptura com o judaísmo em pelo menos três aspectos fundamentais:

Jesus Cristo pregando

- Quanto à natureza de Deus: os judeus creem na unicidade do ente divino; os cristãos, na Santíssima Trindade; 

- Enquanto o judaísmo é uma religião nacional (restrita aos judeus), o cristianismo é uma religião universal, congregando a todos os que aceitam o batismo, inclusive os gentios (pagãos);

- Como se viu no tópico judaísmo, os judeus ainda esperam a chegada do Messias; já o cristianismo se funda na fé de que Jesus de Nazaré, o Cristo, foi por Deus “Ungido”, isto é, do hebraico מָשִׁיחַ (Māšîaḥ), traduzido para o grego por Χριστός (Khristós);

- Para o cristianismo, a Graça – a crença de que Jesus Cristo é o cordeiro de Deus sacrificado para redimir os pecados da humanidade – é mais importante que o cumprimento da Lei – aliás, para o judaísmo, os gentios só devem seguir os Dez Mandamentos e não o vasto regramento específico apenas para os judeus.

A Graça é um dom, um presente que Deus dá aos cristãos pela fé no Salvador:

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da Lei, e sim da Graça” (Romanos 6.14).

“Sabemos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado” (Gálatas 2.16).

Isso não significa que Jesus revogou toda a Lei de Moisés, pois Ele próprio a observava e na célebre passagem do Jovem Rico recomenda a este que assim o faça. Mas, acima de tudo, mais importante é aceitação do amor de Jesus, o Redentor.

“‘Se você quer entrar na vida [eterna], obedeça aos mandamentos’. ‘Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe’ e ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. (...) ‘Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois, venha e siga-me’” (Mateus 19:17-21).

A história de Jesus Cristo se passa durante a dominação de Roma no Oriente Médio. No ano 63 a.C., Pompeu se apoderou da Palestina e o senado romano elegeu Herodes, o Grande, rei da Judeia (34 a.C. até 4 a.C). Mais tarde, a Judeia foi dividida entre os filhos do rei (Antípater, Alexandre, Aristóbulo, Filipe, Herodes Filipe, Herodes Arquelau e Herodes Antipas, o Tetrarca) e depois confiada à administração de governadores romanos, o quinto dos quais foi Pôncio Pilatos (26-30 d.C.).

Jesus Cristo nasceu em Belém, entre 1-5 a.C., filho de uma virgem, Maria, e do seu esposo, o carpinteiro José, da família de Davi. Naquele tempo, os reis magos (astrônomos) chegaram do Oriente à Jerusalém; seguiam uma estrela que indicava o local onde nasceria o novo rei dos judeus. Encontraram o recém-nascido Jesus numa manjedoura e o adoraram.

Herodes, o Grande, ficou bastante preocupado com os rumores de um novo rei e ordenou a matança dos pequenos inocentes, passagem dos Evangelhos que narra o infanticídio ocorrido em Belém.

Antes disso, porém, José sonhou com um anjo que o avisou sobre a intenção do rei em matar o menino Jesus. Ele, a criança e Maria fogem para o Egito e só retornaram à Judeia quando o anjo assim os recomendou.

Depois de um período de 30 anos de vida retirada, Jesus retorna e anuncia o Novo Mandamento ou as Boas Novas – os Evangelhos, do grego ευαγγέλιον, euangelion (“eu-”, bom, “-angelion”, mensagem) – passando, então, a pregar as bem-aventuranças (bem-aventurados os pobres, os perseguidos etc.).

Jesus Cristo teve doze apóstolos, Simão Pedro, Tiago, João, André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, um segundo Tiago, Judas Tadeu, Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes (este foi quem traiu Jesus).

Sua doutrina, em essência, versa sobre um amor sem reservas:

“O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15: 12) e

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mateus 5: 43-45).

O amor ao próximo, sem distinção, é a grande novidade do cristianismo e a primeira evocação do ideal de igualdade a ultrapassar os limites restritos de algumas especulações filosóficas:

“Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).

Numa época em que a mulher era tida como impura do ponto de vista litúrgico e colocada à margem da vida pública, Jesus ensinou as Escrituras a mulheres (algo proibido), tomou Maria Madalena como discípula e permitiu que uma prostituta lavasse seus pés.

Jesus Cristo também pregou o livre-arbítrio, a liberdade das pessoas perante as suas escolhas e também nas relações com Deus. Mas a condição para a liberdade deveria provir da busca da perfeição e da caridade com Deus e com o próximo, tendo em vista a pobreza, a castidade e a obediência, desde que sinceras e assentidas com o coração puro e alegre.

Muitas e minuciosas regras seguidas e elaboradas pelos escribas judeus não eram aprovadas por Jesus, fato que o fez entrar em conflito com os sacerdotes do Templo, os fariseus.

Entre muitas delas, a Lei de Moisés ordenava o apedrejamento em caso de adultério. Jesus Cristo é questionado pelos sacerdotes se uma mulher que acabara de ser pega em flagrante adultério deveria ser apedrejada, como determinava a Lei. Jesus responde: “Atire a primeira pedra aquele que nunca pecou”. Um a um, a multidão soltou as pedras e foi embora. Jesus pergunta: “’Mulher, onde estão eles? ninguém te condenou?’ Respondeu ela: 'Ninguém, Senhor’”. Então, Jesus disse: “Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar”.

Jesus Cristo também criticava a riqueza dos poderosos e a corrupção dos fariseus e expulsou os vendilhões que profanavam o Templo com o comércio. “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mateus 6:24). Assim foi criando muitos inimigos, que passaram a conspirar contra Ele.

Durante sua vida, Jesus Cristo ensinou nas sinagogas e operou muitos milagres por suas andanças. Depois de ressuscitar Lázaro, os fariseus decidiram matá-lo.

Jesus foi preso na Páscoa e julgado pelos sacerdotes no Sinédrio, onde foi condenado por blasfemar, profanar o sábado e ser um falso profeta.

“O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito? E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu” (Marcos 14:61-62)

Levado aos romanos, Pôncio Pilatos não encontra motivos para condenar o Cristo, mas seguindo uma tradição durante a Páscoa deixa o povo julgar. Jesus é condenado e crucificado, para assim, num plano mais elevado, espiar os pecados da humanidade. No terceiro dia depois de sua morte, ressuscita. Seu reino não era na terra mas o dos Céus. 

O apóstolo Saulo de Tarso (São Paulo), judeu com cidadania romana, foi o grande evangelizador do cristianismo no século I da Era Cristã, ensinando a muitos povos de diversas etnias e sobrepondo-se à concepção judaizante de Pedro. No entanto, Pedro é considerado o primeiro Papa da história pelos católicos.

Igreja Católica Apostólica Romana

Em três séculos, apesar das perseguições, o cristianismo se tornou a religião do império romano. Depois da queda de Roma, tem início a evangelização e conversão dos povos bárbaros e pagãos da Europa. Do período que vai de 500 até 1500, a chamada Idade Média, o cristianismo forjou os alicerces da civilização ocidental. Na modernidade, seus valores se espalharam por todo o mundo.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, houve homens e mulheres que, adorando a pessoa de Jesus Cristo, se esforçaram por imitá-lo. São os Santos. Mas não era uma tarefa fácil. Jesus deu a face aos inimigos, suportou as mais duras penas de seus sequazes, como a humilhação e a tortura cruel, e ainda assim os amou e os perdoou.

Para os católicos, o culto e reverência aos Santos é importantíssimo, sendo o maior deles a Santa Maria, mãe de Deus.

Na doutrina cristã formulada pelos Pais da Igreja através da exegese dos Evangelhos e textos sagrados é fundamental a doutrina da Santíssima Trindade: um só Deus em três pessoas iguais e distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. A vinda de Deus sobre a terra. Cristo fala à inteligência, ao coração e à vontade dos fiéis. Sobre a influência do Espírito Santo, surge uma nova sociedade: a Igreja.

Nesta nova sociedade, os homens e mulheres entram em uma nova relação com Deus e se tornam seus filhos mediante a Graça. Na Igreja de Cristo, o fiel conhece claramente a sua finalidade (Deus) e os meios para a atingir (mandamentos, sacramentos, obediência ao Papa e aos bispos).

A Igreja Católica é a sociedade de todos os fiéis que professam a mesma fé cristã e participam dos mesmos sacramentos, sob a autoridade dos legítimos pastores, especialmente o Papa. A Igreja católica se liga ao Antigo Testamento, ao Novo e aos Pais da Igreja dos primeiros séculos e da Idade Média (Patrística e Escolástica).

Os batizados na Igreja Católica formam o povo de Deus. Mas os não batizados também pertencem à Igreja, pois também foram remidos por Cristo e por isso chamados a entrar em seu rebanho.

Portanto, a Igreja é:

Una: porque há uma unidade de fé, de culto e de governo.

Santa: porque nela se atinge a perfeição indicada por Cristo aos seus seguidores.

Católica (Universal): porque tende a se estender a todos os homens (daí o seu espírito missionário).

Apostólica: porque Deriva direta e ininterruptamente dos Apóstolos.

Romana: porque governada e dirigida pelo Papa, Vigário de Cristo, que habita em Roma (Vaticano).

Num certo sentido, a Igreja é o corpo de Cristo, do qual Jesus é a cabeça e os fiéis, os membros.

A Bíblia Sagrada dos cristãos é composta pelo Antigo Testamento e o Novo Testamento.

As principais festas católicas são a Páscoa e o Natal.

Com o tempo, o cristianismo se dividiu em três grandes correntes. Nos próximos artigos da série trataremos da Igreja Ortodoxa e Igreja Protestante.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Bill Haley & The Commets - Pioneiros do Rock'n'Roll

William John Clifton Haley é provavelmente um dos pioneiros da música a deixar seu nome registrado na cultura pop do século XX, quando se tornou mundialmente conhecido com o nome artístico de Bill Haley e seus Cometas, considerada, por muitos, a primeira banda de rock & roll da história. Por quase toda a década dos anos cinquenta, Bill Haley não saiu das paradas musicais, muitas vezes impulsionado por filmes para adolescentes.

Pioneiros do rock'n'roll

O pioneirismo de Haley não para por aí. Antes de se tornar um ícone do rock’n’roll, ele foi o primeiro artista branco a gravar um sucesso de rhythm & blues, "Rocket 88", em 1952.

Em 1953, sua banda, The Saddlemen, muda o nome para o célebre Bill Haley & The Commets e estreia entre o Top 20 da Billboard com a canção "Crazy, Man, Crazy", o primeiro rock & roll a entrar nas paradas de sucesso.

Após a grande estreia, Bill Haley & The Commets venderam dois milhões de cópias com "Dim Dim The Lights" e "Shake, Rattle & Roll", um grande feito para a época. O segundo álbum "Shake, Rattle and Roll" esteve entre os dez mais populares de 1954 e vendeu um milhão de cópias. A música "Rock Around The Clock", eternizada na história da música universal, foi escolhida para trilha sonora no filme Sementes de Violência ("The Blackboard Jungle", 1955), estrelado por Glenn Ford, o jovem Sidney Poitier e Vic Morrow.

Em 1960, Haley, envolvido com problemas legais relacionados ao seu divórcio, fugiu para o México, onde se tornou conhecido como o "Rei Espanhol do Twist", tendo na ocasião seu disco "Florida Twist" entre os mais vendido na América Latina.

Versátil, Haley também estrelou três filmes no México, antes de sua redenção no cenário mundial quando, em 1968, "Rock Around The Clock" voltou às paradas internacionais, alcançando o primeiro lugar no Reino Unido.

Haley não é o cometa mas Bill Haley & The Commets iluminam os astros altaneiros do rock’n’roll.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Empédocles - Nonas Filosóficas

Empédocles
Empédocles (490-430) era oriundo de Agrigento e pertencia a uma das mais nobres famílias da Sicília. Conta-se que recusou a coroa de sua cidade natal; a sua ambição era maior. Costumava dizer aos discípulos: “Eu sou para vós um deus Imortal, e não um mortal”. Vestido de púrpura e ouro, com o louro sacerdotal na cabeça, rodeado de admiradores e admiradoras, correu toda a Sicília. Milhares de pessoas se agitavam em júbilo à sua volta, beijavam-lhe os calcanhares e pediam que lhes predissesse o futuro, lhes curasse as doenças e os Sofrimentos de toda espécie. Afirmava igualmente ter poder sobre o tempo e o vento, e pretendia mandar sobre as brasas solares e a chuva destruidora. Em parte, tinha razão. Livrou a cidade de Selinunte de uma epidemia devastadora, secando os pântanos de suas terras; deu um clima saudável à sua terra natal, fazendo desaparecer uns rochedos, o que permitiu que soprasse um vento fresco do Norte sobre a região. Tanto como engenheiro, realizou como médico grandes empresas. “E prometeu outras ainda maiores” (Gomperz).

Não admitia uma única substância fundamental, como os jônicos, nem inumeráveis, como Anaxágoras, mas sim quatro: fogo, água, o ar e a terra (Nota). A sua posição, de que Aristóteles se apropriou de sua ideia, permaneceu intacta, graças à autoridade deste, até aos princípios da Idade-Moderna. É possível que tivesse igualmente influenciado sobre ele a consideração dos três estados da matéria (sólido, líquido e gasoso). Em todo caso, encontra-se aqui bosquejada a ideia fundamental da química moderna, de que todos os corpos se compõem pela agregação de um número limitado de matérias elementares. Teve também a justificada suspeita de que o fundamento das diferenças qualitativas nas propriedades do composto são as diferenças puramente quantitativas na união de dois ou vários corpos. Comparava, com efeito, com os seus elementos, as quatro cores fundamentais da técnica pictural do seu tempo, em cuja múltiplice combinação se produzem os inumeráveis matizes cromáticos.

Acha-se de acordo com os eleáticos e Anaxágoras em não admitir propriamente a geração e destruição das coisas, afirmando que a aparição de tais fenômenos se deve às uniões e separações. E assim como imagina que os quatro elementos são animados, e eles lhes dá nomes divinos (Zeus, Hera, etc.), assim também vê no amor aquilo que une as matérias, e no ódio o que as separa. Não fala pois de modo algum numa “força” e numa “matéria” claramente distintas, pois que não superou ainda o "hilozoismo" (a animação da matéria).

Empédocles defende também, tal como Anaximandro, Heráclito e uma parte dos pitagóricos, a doutrina do “eterno retorno”, isto é, uma sucessão regular dos períodos cósmicos, que se movem entre os dois extremos: por uma mistura completa e uma separação total dos elementos. A união indiferenciada dos elementos é “a mais espiritual das divindades”. O estado atual do mundo (em que existem espécies vivas) se caracteriza por certo equilíbrio das duas tendências que dominam o universo: o amor e o ódio. (Com isto é introduzido em filosofia - sobre a forma mítica - o conceito de força. O amor e o ódio que as forças produzem têm hoje o seu equivalente na atração e na repulsão). A formação de cada coisa particular supõe o predomínio da força que separa; a sua conservação e desenvolvimento, o predomínio da força que une. Uma certa antecipação - ingênua - da moderna teoria da evolução, pode se ver na afirmação de que, no mundo vegetal, o mais perfeito é um desenvolvimento do menos perfeito, e de que neste desenvolvimento tem importância a “sobrevivência do mais apto”. Empédocles supõe, com efeito, que no princípio foram arrancados da terra os membros separados: “cabeças sem pescoço nem tronco”, “braços sem ombros”, etc.; depois, sob a influência da “amizade”, nasceram formações monstruosas: seres bicéfalos e com dois seios, “formas humanas com pele de boi” etc., mas só as combinações interiormente concordantes se mostraram capazes de viver. A frase: “os cabelos, a folhagem e as penas das aves são uma e a mesma coisa”, faz dele um precursor de Goethe em morfologia comparada.

Também a sua teoria da percepção sensível é interessante. Distingui nesta dois fatores: as partículas que saem das coisas, e os sentidos que as recebem. E ensina, diferentemente de Anaxágoras, que a percepção repousa sobre a atração do homogêneo, portanto, sobre uma espécie de igualdade do subjetivo e do objetivo: “Conhecemos a terra pela terra, água pela água” etc. Com isto, e a afirmação de que “conforme a matéria estiver presente no homem, assim será o seu conhecimento”, reconhece o fato que, na percepção, como em todo o conhecimento, intervém a peculiaridade do sujeito.

Não se harmoniza bem com a sua hipótese de que toda a matéria é animada, a doutrina da transmigração das almas, na qual a alma aparece como coisa independente, que pode ser separar das suas diversas encarnações. Todas as almas são, segundo ele, demônios que, por via dos seus pecados, desceram da sua pátria celeste a este vale de lágrimas: ficam desterrados no corpo, como num “cárcere”; sofrem várias encarnações como homem, animal ou planta e, finalmente, após uma purificação de milhares de anos, regressão à pátria celeste. É evidente que Empédocles segue, nesse ponto, a doutrina dos órficos e dos pitagóricos.

Nota: Não fez mais do que acrescentar a terra nos elementos que os seus antecedentes reconheceram (Tales, Anaxímenes, Heráclito); além disso, estas quatro substâncias se encontram nos antigos mitos e teologias. Foi o primeiro filósofo grego a distinguir o ar do vapor, e a mostrar que um vaso cheio de ar não está vazio, visto este impedir a entrada de ar.

(August MESSER, “História da Filosofia”, Editorial Inquérito: Lisboa, 1946 - obra em domínio público).

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