A literatura brasileira do final do século XIX e início do XX é marcada por uma transição fascinante, onde o Romantismo dava seus últimos suspiros e o Realismo/Naturalismo buscava dissecar a sociedade. Nesse cenário, surge A Conquista, de Coelho Neto, uma obra que não é apenas um romance, mas um documento histórico-literário sobre o desejo de glória e as agruras da vida intelectual no Rio de Janeiro da Belle Époque.
Neste artigo, exploraremos como Coelho Neto utilizou suas próprias vivências para construir uma narrativa vibrante sobre a juventude que sonhava em conquistar o mundo através das letras.
1. Introdução: O Que é "A Conquista"?
Publicado em 1899, A Conquista é considerado por muitos críticos como um romance de formação e, simultaneamente, um romance de chave (roman à clef). A obra narra a trajetória de um grupo de jovens intelectuais e artistas que se mudam para o Rio de Janeiro com um objetivo comum: o sucesso.
O protagonista, Anselmo Ribas, serve como um alter ego do próprio Coelho Neto. Através de seus olhos, testemunhamos a luta contra a pobreza, a busca por espaço nos jornais e a efervescência dos cafés e redações que moldaram a cultura brasileira.
2. O Cenário da Obra: O Rio de Janeiro como Protagonista
Não se pode falar de A Conquista sem mencionar a capital federal da época. O Rio de Janeiro de Coelho Neto é uma cidade em metamorfose, onde o luxo das elites convive com a miséria das pensões baratas.
2.1 A Boêmia Literária
A narrativa mergulha profundamente na boêmia. Os personagens frequentam lugares históricos, discutem filosofia em esquinas e transformam a falta de dinheiro em poesia. Coelho Neto descreve com maestria o ambiente das redações, onde a política e a arte se misturavam sob a fumaça dos charutos.
2.2 O Contraste Social
Enquanto os jovens buscam a "conquista" do título — que remete tanto ao sucesso profissional quanto à aceitação social —, a obra revela as barreiras de classe e a dificuldade de ascensão em uma república recém-proclamada, mas ainda presa a velhos vícios coloniais.
3. Personagens e a Técnica do Romance de Chave
Uma das características mais fascinantes de A Conquista é a presença de figuras reais da literatura brasileira sob pseudônimos ou descrições transparentes.
Anselmo Ribas: Representa Coelho Neto e sua resiliência.
A Presença de Olavo Bilac e Raul Pompéia: Leitores atentos conseguem identificar traços de grandes nomes da época, o que transforma a leitura em um exercício de arqueologia literária.
O Grupo de Amigos: A dinâmica entre os personagens mostra a importância das redes de apoio e das amizades intelectuais na construção de uma carreira.
4. O Estilo de Coelho Neto: O "Príncipe dos Prosadores"
Coelho Neto foi aclamado como o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", mas também criticado por seu estilo excessivamente ornamental. Em A Conquista, essa característica é evidente.
4.1 Vocabulário Rico e Plasticidade
O autor utiliza um léxico vasto, quase barroco. Suas descrições são visuais e sensoriais. Ele não apenas narra um encontro; ele pinta a luz da tarde, o cheiro da tinta de impressão e o som das carruagens.
4.2 Entre o Realismo e o Impressionismo
Embora a base do livro seja a observação fiel da realidade (Realismo), há momentos de subjetividade e emoção que beiram o Impressionismo, focando nas sensações internas dos personagens diante dos fracassos e das pequenas vitórias.
5. Por que Ler "A Conquista" Hoje?
Apesar de ser uma obra do final do século XIX, os temas de A Conquista permanecem atuais:
A Luta do Artista: A dificuldade de viver de arte em um país que muitas vezes a negligencia.
A Identidade Nacional: A busca por uma literatura genuinamente brasileira, desvinculada dos modelos puramente europeus.
História Viva: É uma das melhores fontes para entender o cotidiano dos intelectuais que fundaram a Academia Brasileira de Letras.
6. Perguntas Comuns sobre A Conquista
O livro é autobiográfico? Sim, em grande parte. Anselmo Ribas vive muitas das experiências que Coelho Neto enfrentou ao chegar ao Rio de Janeiro vindo do Maranhão.
Qual a principal mensagem da obra? A obra enfatiza que a "conquista" não é apenas o ponto de chegada (a fama), mas o processo de resistência, o amadurecimento através do sofrimento e a preservação do idealismo.
Coelho Neto ainda é relevante? Embora tenha sido "esquecido" pelos modernistas de 1922 (que o viam como passadista), sua importância histórica e sua habilidade linguística estão sendo reavaliadas por novos estudiosos da literatura.
7. Conclusão: O Legado de um Sonho
A Conquista de Coelho Neto é um testamento de uma geração. Ela nos ensina que a literatura não é apenas o texto final, mas a vida que pulsa por trás dele. Ao ler este romance, não apenas conhecemos a história de Anselmo, mas sentimos o coração do Rio de Janeiro de outrora batendo em cada página. É uma leitura indispensável para quem deseja compreender as raízes da nossa identidade intelectual.
(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração de A Conquista, de Coelho Neto, apresenta uma síntese visual do espírito intelectual, urbano e idealista que atravessa o romance. Organizada em painéis sucessivos e envolta por uma moldura ornamental de inspiração art nouveau, a composição sugere a ideia de movimento histórico e de progresso coletivo, em consonância com o título da obra.
Na parte superior, vê-se uma ampla cena urbana do final do século XIX: ruas largas, edifícios elegantes, cafés, jornais e carruagens em circulação. Essa paisagem representa o Rio de Janeiro em processo de modernização, espaço simbólico onde se desenrola a “conquista” intelectual e social dos jovens idealistas. A cidade aparece como palco da vida pública, da circulação de ideias e do encontro entre tradição e modernidade.
Nos painéis centrais, a ilustração se concentra no universo intelectual. Um jovem solitário lê e escreve à luz de uma vela, imagem do esforço individual, da disciplina e do sacrifício ligados à formação do escritor e do pensador. Ao lado, grupos de homens discutem em cafés, em mesas rodeadas por livros e papéis, evocando o debate literário, político e filosófico que marca o romance. A prensa tipográfica, por sua vez, simboliza a imprensa, a difusão das ideias e o papel da palavra escrita como instrumento de transformação social.
Na parte inferior, a cena ganha um tom épico e coletivo: homens e mulheres de diferentes origens caminham juntos em direção ao horizonte, acompanhando trilhos de trem que cortam a paisagem. Esse avanço conjunto sugere o progresso, a esperança e o ideal de construção de um futuro melhor, reforçando o caráter de “epopeia do idealismo brasileiro”, como indica a legenda. O trem e os trilhos funcionam como metáforas da marcha histórica e da confiança no avanço civilizacional.
Assim, a ilustração traduz visualmente o sentido central de A Conquista: a crença no poder das ideias, da literatura e do engajamento intelectual como forças capazes de impulsionar o indivíduo e a sociedade rumo ao progresso. A obra de Coelho Neto é apresentada não apenas como um romance, mas como um retrato simbólico de uma geração que via na cultura e no idealismo um caminho de afirmação e transformação nacional.
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