quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Antifa e o movimento punk

O movimento Antifa pode ser descrito em termos gerais como um grupo articulado em torno de uma ideologia radical de esquerda e da prática de autodefesa, baseada na ação direta, contra grupos de extrema direita, racistas, machistas, fascistas, nazistas e neonazistas. É, portanto, uma tendência específica, dentro do movimento antifascista histórico mais amplo, estruturado numa organização horizontal e congregando-se, sob um objetivo comum, a várias bandeiras da esquerda, como o comunismo, o anarquismo, o socialismo, o antirracismo, o feminismo etc.

Símbolo antifa

Os progenitores do movimento Antifa foram grupos de esquerda alemães e italianos que, após a Primeira Guerra Mundial, se uniram para combater as gangues protofascistas. Sua origem, portanto, remonta às décadas de 1920 e 30, quando a luta contra o fascismo surgiu como uma necessidade urgente e real, diante dos ataques dos Camisas Negras, de Mussolini, e da SA, de Hitler. Na Itália, eles se reuniam sob a insígnia do Arditi del Popolo ("Ousados ​​do Povo"), enquanto na Alemanha de Weimar do Antifaschistische Aktion, de onde Antifa.



Na Alemanha, durante a ascensão e era hitlerista, os operários das principais cidades foram os que mostraram a maior capacidade de resiliência ao assédio nazista. Estes grupos, oriundos dos locais de trabalho e de conjuntos habitacionais, eram geralmente chamados de "Antifaschistische Ausschüsse", "Antifaschistische Kommittees" ou "Antifaschistische Aktion" - "Antifa". No ano de 1932, eles usaram o slogan – Antifa – enquanto orientação estratégica de frente única, numa tentativa de estabelecer aliança entre os trabalhadores comunistas e os social-democratas.

Conferência Antifaschistische Aktion em 1932
Conferência Antifaschistische Aktion em 1932.

Depois de Auschwitz e Treblinka, os antifascistas se comprometeram a lutar até a morte, caso fosse necessário, contra grupos neonazistas que, porventura, dessem as caras.

Parte do objetivo da Antifa é constituir uma continuidade histórica de resistência à violência no tocante à extrema-direita e fomentar uma organização de autodefesa coletiva diante da ameaça fascista.

No final dos anos setenta, a cena punk e hardcore tornou-se palco do confronto aberto entre movimentos de esquerda, notadamente anarquistas, e grupos neonazistas. Na Holanda e Alemanha, squaters ou ocupas (grupos que ocupam imóveis) conhecidos como Autonomen foram pioneiros no método Black Bloc: mascarados de roupas negras que são a linha de frente nas manifestações populares.

Reunião com manifestantes antifa

Mas nem sempre as coisas foram tão simples assim na cena underground. Às vezes, skinheads nazistas ocasionalmente invadiam shows de bandas como Black Flag, Minutemen, Fugazi, entre outras, pisoteavam em seus fãs e, por fim, faziam a saudação característica a Hitler. Além disso, muitos punks ostentavam a suástica para chocar e provocar, tais como Sid Vicious e Siouxsie Sioux, embora não fossem de fato neonazistas.

Em 1980, gangs punks passaram a praticar uma violência gratuita que mais lembrava os fascistas do que aqueles que deviam combatê-los, o que motivou Jello Biafra, do Dead Kennedys, a dizer: "Alguns deles não parecem estar lá para curtir o show; eles parecem estar lá mais para brigar e bater nas pessoas, de uma maneira realmente frívola". Em resposta, no ano de 1981, os Dead Kennedys lançaram um clássico do hardcore: "Nazi Punks Fuck Off".

Atualmente, grupos de imigrantes, feministas, riot grrrl, punks e skinheads (de esquerda, como red skin e sharp) mobilizam-se em diferentes momentos e lugares para defender e lutar em nome da Antifa.

Símbolo skinheads antifas


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Terra plana versus Terra globo: confronto final

Como todos devem saber, a concepção da terra plana, há muito ultrapassada, voltou à tona nos debates da internet.


Segundo reportagem “7% dos brasileiros afirmam que a Terra é plana: Crença também é maior entre os mais jovens e cristãos e cresce com as redes sociais”, publicada pela Folha de São Paulo, em 14/07/2019, revelou que pelo menos 11 milhões de brasileiros acreditam que a Terra é plana, conforme resultados de pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha.

"A crença de que a Terra é plana se revelou inversamente proporcional à escolaridade. Enquanto 10% das pessoas que deixaram a escola após o ensino fundamental defendem o chamado terraplanismo, essa parcela diminui entre os que estudaram até concluir o ensino médio (6%) ou superior (3%)", detalha a reportagem.

"No Brasil é difícil detectar quando o terraplanismo surgiu. Um fator que pode ter contribuído, na esteira da influência de terraplanistas dos EUA, é o alcance de grupos organizados em redes sociais", continua a matéria.

Mas, afinal, a terra é plana ou redonda?

Para tentar responder essa pergunta, vamos analisar algumas imagens e, no final do artigo, vocês é que vão tirar as suas próprias conclusões.

Todo o argumento dos defensores da terra plana está fundamentado nessa ilustração, já que eles não acreditam nas fotos de satélites, da estação espacial, viagem à lua etc. Para eles essas imagens são montagens ou alteradas no photoshop.
Ilustração comparativa: terra plana e terra globo

Portanto, tudo o argumento consiste em negar a curvatura da terra através da observação de objetos situados sobre a superfície do mar a uma longa distância. Na terra plana, esses objetos seriam vistos independentemente de suas distâncias. Já na terra globo, em um dado momento e distância, esses objetos desapareceriam, graças à curvatura da terra, como se estivessem descendo uma rampa.

terra plana
No item “a”, terra plana, seria possível a um observador munido de um telescópio visualizar, supondo um supertelescópio, desses que a gente vê os planetas, uma sequência de bandeirinhas que, em teoria, seriam visíveis até a “borda” da terra. Por mais longe que a bandeirinha se encontrasse, ela seria visível integralmente, desde a base de sua haste até o pano retangular, no topo.

terra globo
No item “b”, terra globo, o raio de visão do observador, em linha reta, perderia o foco das bandeirinhas, que seguiriam uma trajetória curva. A bandeirinha começaria a sumir lentamente pela base até desaparecer completamente pelo topo.

Um navio navegando em direção ao horizonte, na terra plana, seria visível até diminuir de tamanho e, pouco a pouco, se tornar um pontinho e, enfim, sumir. Com um telescópio, se focássemos na direção de sua trajetória, seria possível observar o navio outra vez, como se ele estivesse muito perto de nós novamente.

Ilustração comparativa com um navio: terra plana e terra globo

Na terra redonda, por causa da tal curvatura, o navio, a uma certa altura, começaria a desaparecer pelo casco até sobrar só a parte de cima e, então, desaparecer completamente. De nada adiantaria apontar o telescópio para a direção em que ele se foi, pois só veríamos o horizonte do mar.


Observem como este navio de pirata se deslocaria na terra plana, à esquerda, e na terra globo, à direita.



A observação tem confirmado o modelo da direita, isto é, terra globo. Mas seria possível objetar porque objetos que ultrapassaram a linha do horizonte, como aviões, torres de farol sinalizador ou prédios situados numa ilha distante, não aparecem inclinados.

O problema é que não é tão simples assim, simplesmente, porque não conseguimos enxergar a olho nu um objeto do tamanho de um navio descer a curvatura da terra.

Quando, por exemplo, subimos no último andar do Terraço Itália, de 165 m de altura, e olhamos para baixo, vemos pessoas do tamanho de formiguinhas.


Realmente, somo muito pequenos, seres microscópicos mesmos, em comparação com as medidas do planeta Terra.


Na verdade, a experiência do navio só poderia ser realizada com o uso de um telescópio e o resultado seria este:

Telescópio
Ilustração comparativa com um navio: terra plana e terra globo

Portanto, é preciso considerar as dimensões do planeta Terra, que são gigantescas, e compará-las com o tamanho médio de um ser humano. Os números são estes:

Área da superfície da Terra: 510.100.000 km2 ou 510.100.000.000 m2

Circunferência da Terra: 40.075 km ou 40.075.000m

Tamanho médio de um ser humano: 1,70 – 1,80 de altura

Para se ter uma ideia do que isso representa em termos de escala, tomemos hipoteticamente o tamanho de uma pulga tornando-o equivalente em proporção a de uma pessoa de 2m de altura e, em seguida, comparemos a de outros animais e coisas e depois com os valores acima:

Uma pulga: 0,02m ou 2mm - ser humano: 170mm


Ou seja, em termos proporcionais, para uma pulga um ser humano seria mais alto do que o edifício Terraço Itália.

Outros valores convertidos em milímetros para efeitos de comparação:

Elefante: 700mm – Baleia azul: 3500mm – Prédio mais alto do mundo: 82800mm – Pista de cooper do Ibirapuera: 400000mm

Agora tomemos o estádio do Maracanã com seus 150 mil m2 convertidos em mm2: 150.000.000.000. Multipliquemos por 3 estádios do Maracanã. O resultado é 450.000.000.000 mm2. Juntemos à sede do Flamengo de 73 mil m2 ou 73.000.000.000 mm2. Coloquemos uma pulga no meio disso tudo.

Surpreso? Se você encontrar a pulga, ganha R$ 1000000,00!!!

Isso é mais ou menos o tamanho da Terra em relação a um ser humano.

Tendo em vista estes parâmetros, para se ter uma compreensão mais concreta de como um navio “desaparece” atrás do horizonte, devemos incluir outro fator: o ângulo e o grau da circunferência da Terra.

O ponto amarelo marca 1 grau
O sinal amarelo à esquerda marca 1 grau. 
Arredondando a circunferência da Terra para 40.000km e dividindo por 360 graus, um grau corresponde à distância de 111 km ou 111000 m.

O ponto amarelo marca 1 grau
Repare no intervalo de 1 grau, parece uma reta.

Para termos uma noção dessa grandeza, podemos estabelecer relações de distância entre cidades e a média do tempo estimado de viagem entre uma cidade e a outra.

Um grau corresponde a 111 km.
São Paulo – Jundiaí – 47 km (em linha reta), 55 km (rodovia) e 44 minutos de viagem.

São Paulo – Santos – 57 km (em linha reta), 76 km (rodovia) e 57 minutos de viagem.

São Paulo – campinas – 82 km (em linha reta), 96 km (rodovia) e 1h22min.

São Paulo – São José – 86 km (em linha reta), 99 km (rodovia) e 1h11min.

São Paulo – Sorocaba 100,6 km (rodovia) e 1h30min.

Para o observador ao nível do mar a curvatura da terra coincide com a linha do horizonte.


Através de uma Calculadora de horizonte e curvatura da Terra, podemos inferir a distância da linha do horizonte e a altura de objetos que seguem para além do horizonte através de um observador de 1,7 m de altura ao nível do mar. (Os números abaixo desconsideram o índice de refração e são sempre referentes a perspectiva de 1,7 m de altura).

Observador – linha do horizonte 4654,18 metros.

Para este observador, se um surfista moicano de 2 metros de altura ultrapassar 1 km além da linha do horizonte, este surfista continua sendo perfeitamente visível.

A partir de 10 km, o surfista seria visível da cintura para cima.

Depois de 12 km, o surfista seria totalmente encoberto restando apenas seu cabelo moicano.

A curvatura da terra permite que vemos o topo da ilha.
Uma ilha de 44 m de altura a uma distância de 28 km seria perceptível apenas a partir de seu topo de 1,20 m. Se consideramos a refração esse número poderia ser aumentado, pois a curva da luz aumenta o objeto, e mesmo a uma distância de 34 km o topo da ilha poderia ser avistado.


Um navio de cruzeiro pode alcançar 72 metros de altura.

O navio não ultrapassou a linha do horizonte
Para um navio de cruzeiro desaparecer completamente atrás do horizonte, ele teria de navegar mais de 37 km da costa, ou seja, quase a distância São Paulo-Jundiaí, e ainda assim sobraria a pontinha da chaminé. Considerando que a velocidade média de um cruzeiro é de 24 e os 26 nós (cerca de 48 km/h), o navio levaria quase uma hora para “sumir” atrás do horizonte.

Representação de um navio atrás da linha do horizonte.
Para um prédio ser visível a 111 km, o que corresponde a um ângulo de 1 grau, ele teria que ter uma altura superior a 887,5 metros.

Transcorrido 1 grau, a curvatura desceu 970 m de altura a linha do horizonte.
A inclinação desse prédio seria de apenas 1 grau, quase imperceptível. Nota-se que a inclinação atual da Torre de Pisa é de 3,99 graus.


O que significa que, para se observar um objeto atrás da linha do horizonte no mar com a mesma inclinação da Torre de Pisa, este deveria ter uma altura de mais de 4 km e estar a uma distância de mais de 400 km do observador, ou seja, mais longe que a distância que separa as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, que é de 358 km. 

Para concluir temos a seguinte relação:

Observador: 1,7 m – 0,04 graus – linha do horizonte: 4654 m.

0,48 graus – 55 km – 198,9 m abaixo da linha do horizonte.

1 grau – 111 km – 877,5 m abaixo da linha do horizonte.

O grande problema dos terraplanistas é que eles não provam nada, apenas lançam objeções aos fatos consolidados que demonstram que a Terra é um globo, numa tentativa de distorcer a realidade, confundir e convencer os incautos e crédulos aos seus propósitos (muitas vezes financeiros).


Devido às determinações referentes a direitos autorais, este blog utiliza imagens licenciadas ou autorizadas e não utiliza mais imagens de terceiros. Assista no YouTube o vídeo “Como os Barcos Desaparecem no Horizonte” para ver um navio descer a curvatura da Terra.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Conversa Afiadíssima e gênero textual

Até bem pouco tempo atrás, a internet era uma fonte bem pouco confiável de conhecimento e informação. Todavia, a imprensa convencional não oferecia alternativa satisfatória, dada a parcialidade dos órgãos de imprensa, dominados pelos monopólios de mídia. Na verdade, tais órgãos atuam sempre politicamente, visando mobilizar a opinião pública em geral na defesa dos interesses particulares – nunca expressos – das oligarquias representadas por estas grandes empresas.

Foto do Paulo Henrique Amorim

Ao conhecer o blog Conversa Afiada, percebi que havia ocorrido uma drástica mudança no conteúdo veiculado pela internet: um surpreendente e repentino salto de qualidade. O Conversa Afiada me levou a conhecer outros blogs, todos excelentes, como o Tijolaço, o Viomundo, entre outros, não necessariamente jornalísticos, mas relacionados à literatura, música, ciência etc. E a leitura assídua desses blogs me incentivou a fazer o Verso, Prosa & Rock’n’Roll. Não é à toa que Fernando Brito chamou Paulo Henrique Amorim de patrono da blogosfera.

A crítica do PH, o célebre e ansioso blogueiro, à imprensa merece uma reflexão, dentro da teoria da enunciação, pois o jornalismo se configura como um dos diversos gêneros discursivos. A teoria da crítica textual pressupõe a noção chave de “gênero”, abordado tanto por Mikhail Bakhtin como Luiz Antônio Marcuschi. Evidentemente, a importância do conceito ultrapassa o âmbito literário, pois, segundo Bakhtin, “entende-se por gênero não no sentido formalista, mas como zona e campo da percepção de valores e da representação do mundo” (BAKHTIN, p. 418). Portanto, o gênero é uma produção específica de comunicação, anterior ao diálogo e condicionada política, histórica e socialmente. Sendo produto de cultura, os gêneros são variados e abertos a inovações ou transformações, na mesma proporção em que se intensificam as relações dinâmicas e a complexidade social. Neste sentido, uma ou cada esfera específica produz um discurso com características próprias, o que implica as condições de uso e do contexto das diversas atividades humanas em jogo. A cristalização de um gênero discursivo se realiza a partir de enunciados concretos da prática em questão, supondo um estilo comum a uma determinada esfera e a estabilidade dos códigos da linguagem envolvidos. Por óbvio, um gênero não existe por si mesmo. As relações sociais pelas quais um gênero é produzido são bastante determinantes no processo de sua formação, muito embora estas também sejam condicionadas pelo gênero produzido.

Da inter-relação entre língua e práticas sociais é construído objetos do discurso que são ativados ou desativados ao longo do texto. Os discursos expressam uma intenção que nem sempre se mostra como tal e muitas vezes dissimula o próprio discurso. É exatamente o ponto fulcral do “gênero jornalístico”, cuja crítica é interditada por interesses ocultos dos atores envolvidos. Ora, o “gênero jornalístico” de modo algum busca criar uma representação linguística da realidade, ainda que se venda jornal sob a áurea da imparcialidade e objetividade. O jornalista é um funcionário, empregado por uma empresa, a quem deve satisfações; caso contrário, sua contratação seria inviabilizada ou a demissão seu destino mais provável. A relação patrão-empregado implica em coações avassaladoras e implícitas das quais acabam por marcar o “gênero jornalístico” de modo inescapável. Assim, não é fácil para o leitor filtrar na matéria a informação da manipulação social, haja vista a suposta isenção e neutralidade das quais se pretende o “gênero jornalístico”.

Em contrapartida, os blogs ofereceram um discurso jornalístico mais honesto, já que não escondem suas posições políticas. Por isso, a noção de fake news é equivocada. Afinal, boatos são usados como arma política desde Roma, senão, em tempos ainda mais antigos, antediluvianos. Além disso, como distinguir fake news de edições completamente tendenciosas feitas pela grande mídia? Somente os tolos ou hipócritas acreditam nessa bobagem. Cabe ao leitor uma atitude ativa diante da notícia, procurando sempre perscrutar os fatos, não se contentado com as aparências, e, daí, tirar suas próprias conclusões através do juízo bem formado (e informado).

Hoje, a internet e os blogs, como o Conversa Afiada, oferecem instrumentos para uma pesquisa inteligente perante os fatos, sem cair na alienação.

Bibliografia

MARCUSCHI, L. A. “Análise da conversação”. São Paulo: Editora Ática, 1999.

MARCUSCHI, L. A. “Gêneros textuais: definição e funcionalidade”. In: DIONÍSIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (Org.). Gêneros textuais e ensino. 4. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

BAKHTIN, M. “Os gêneros do discurso”. Paulo Bezerra (Organização, Tradução, Posfácio e Notas); Notas da edição russa: Seguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2016.

BAKHTIN, M., “Questões de Literatura e de Estética”. São Paulo: Editora HUCITEC & UNESP, 1988.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Variação linguística: tu ou você?

Para realizar um trabalho em linguística do ponto de vista histórico é preciso antes considerar algumas limitações. O primeiro fator limitativo – e, certamente, o mais importante – é o da indisponibilidade e imperfeição dos registros, que não permitem um alcance preciso do objeto em questão. A linguística histórica, ao se defrontar em seu arcabouço com línguas muitas vezes desaparecidas, trabalha apenas com “vestígios”, isto é, indícios incompletos, normalmente relacionados à escrita ou inferidos hipoteticamente. A questão da oralidade ou da pronúncia resta-lhe como incógnita a ser decifrada por métodos indiretos, muitas vezes não propriamente linguísticos, e que jamais lhe concedem a exatidão do fenômeno a ser estudado. Isto pode ser observado em torno do latim que, a despeito do farto material disponível e da reconstituição científica bastante exitosa no que tange a uma suposta pronúncia (aproximada), inúmeros aspectos ainda permanecem lacunares, como, por exemplo, o modo de falar no cotidiano ou a forma denominada latim vulgar, que deu origem as línguas românicas. Ou seja, o linguista histórico não dispõe de registros orais como hoje são abundantes, tais como gravadores, discos, CDs etc.; o que faz de seu trabalho um tatear no escuro. Neste sentido, quando se trata da reconstituição de línguas antigas, devemos nos contentar com aproximações, as quais, entretanto, devem guiar o nosso entendimento a respeito do assunto.


Tendo em vista o fato do idioma português ser uma língua românica, isto é, originada do latim vulgar, o que sugere uma grande transformação ao longo do tempo, diante da variação bastante acentuada entre o Português de Portugal (PP) e Português Brasileiro (PB), não só do ponto de vista da prosódia como também da gramática, é razoável conjeturar um cenário futuro não só possível como provável em que o português falado no Brasil e em Portugal serão línguas distintas – embora muito linguistas já considerem essa hipótese como atual.

Dois exemplos bastante interessantes de distinção no português falado na maior parte do Brasil é a substituição dos pronomes “tu” por “você” e “nós” por “a gente”. É interessante notar que, no latim clássico, os pronomes pessoais do caso reto (ou pronomes substantivos) comportam-se tal como no português (PP), a saber, são quase sempre omitidos, haja vista a pessoa indicada ser inferida pela desinência verbal, não havendo, por isso, necessidade de citá-la. Todavia, o pronome é um elemento gramatical relevante, com função de substituir um nome ou substantivo, e, portanto, tem seu lugar na sintaxe latina e geralmente é usado de modo mais expressivo. Economicamente, porém, bastaria dizer, em Portugal, “foste à quinta de Manuel”, para saber de que se trata de “tu” e não de “você”.

Mas, no Brasil, além de, no geral, não se omitir o pronome, quase se aboliu o uso do “tu” ou, quando ainda em vigor, não é usado conforme a norma culta (p.ex.: “tu foi” etc.) – com raríssimas exceções nos estados do Rio Grande do Sul (excetuando Porto Alegre) e do Pará, salvo engano.

Assim, no caso de tu-você e nós-a gente ocorrem, atualmente, numa coexistência, com câmbios nas intensidades de uso, algumas idiossincrasias regionais e o total declínio do uso do “tu” e do “nós” em alguns segmentos sociais.

A gramaticalização, de acordo com o princípio da estratificação, pressupõe a coexistência entre novos e antigos valores ou usos, principalmente em seus estágios iniciais. No século XVIII, havia coexistência do uso do “vossa mercê” e do “você”. Restaria saber se ocorria maior ou menor incidência do uso destas duas formas e suas variações intermediárias “vossemecê”, “vosmecê”, “vosmicê”, “vossuncê” etc., que também deviam coexistir simultaneamente, conforme região, classe social, gênero, norma culta, língua coloquial, escrita, oralidade etc. Já o princípio da persistência indica a permanência das propriedades lexicais nas formas gramaticalizadas, como no caso de você.

Estas variações linguísticas em relação aos pronomes pessoais acarretam algumas consequências, como a variação você/tu; variações nos oblíquos (ex. uso de “te” para “você” e não para “tu” etc.); desaparecimento do “vós”, “teu”, “lhe” etc.; substituição do “nós” por “a gente”; “você” indeterminado; declínio na língua falada do pronome demonstrativo “este”, etc. etc. etc.

A título de curiosidade, façamos uma comparação da conjugação do verbo amar em latim, PP, PB (oral) e inglês.

Latim
Amo (ego)
Amas (tu)
Amat (se)
Amamus (nos)
Amatis (nos)
Amant (illos, illas)

PP
Eu amo
Tu amas
Ele/Ela ama
Nós amamos
Vós amais
Eles amam

PB
Eu amo
Você (Tu) ama
Ele/Ela ama
A gente ama
Vocês amam (ama)
Eles/Elas amam

Inglês
I love
You love
He/She/It loves
We love
You love
They love

Nota: Com o tempo, a omissão do pronome pessoal, subentendido na desinência verbal, como no Latim e no Português-Português, não será mais possível em Português-Brasileiro, o que o tornará muito semelhante à língua inglesa. 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O movimento anarcopunk - Punk & Anarquia

Uma crescente onda popular se interessou pelo anarquismo no Reino Unido durante a década de 1970, após o nascimento do movimento punk na Inglaterra (Nota 1), em particular, artistas influenciados pelos Situationistas (Nota 2), como Jamie Reid, designer do Sex Pistols e ilustrador de suas capas, como a do célebre álbum "Anarchy in the UK". Todavia, enquanto a cena punk no início utilizava-se de imagens e símbolos anarquistas, como o “A” dentro do círculo, principalmente, para chocar, zombar ou, na melhor das hipóteses, expressar um desejo de liberdade hedonista e individual, bandas como Crass e Poison Girls levaram a sério o ideal do anarquismo e podem ser hoje consideradas as primeiras bandas anarcopunk.

Capa do livro

A partir deles, o conceito e a estética anarcopunk foram rapidamente reproduzidos por bandas como Flux of Pink Indians, Subhumans, Chumbawamba e Conflict. Essas bandas anarcopunks da primeira leva eram musicalmente muito variadas, mas geralmente possuíam algumas coisas em comum: uma disposição para experimentação, que muitas vezes saía dos limites do punk e hardcore convencionais; uma concepção de si mesmas como coletivos musicais; e, enfim, representavam uma radicalização da cultura punk, pela qual, dentre outras coisas, pautas como direitos animais ou igualdade de gênero compunham seu repertório de reivindicações.

Com o avanço dos anos 80, dois novos estilos punk evoluíram no movimento anarcopunk: o d-beat e o crust punk. O d-beat era um modo muito rápido e brutal de tocar música punk e foi criado por bandas como Discharge e Varukers. Já o crust misturava o anarcopunk com o heavy metal e teve como representantes bandas como Antisect, Sacrilege e Amebix. Um pouco mais tarde, também nos anos 80, o grindcore se desenvolveu também do anarcopunk e assemelhava-se ao crust, só que ainda mais pesado em termos musicais. Bandas como Napalm Death e Extreme Noise Terror foram expoentes do grindcore. Paralelamente ao desenvolvimento desses subgêneros, muitas outras bandas da cena punk e hardcore acabaram por adotar a ideologia anarcopunk, tais como MDC e Reagan Youth.


Simultaneamente, o anarcopunk começou a absorver elementos característicos dos mochileiros, da era neo-hippie, assim como a cena de ocupações políticas. Consequentemente, elementos de música folclórica, country, rap, música tradicional irlandesa e jazz começaram a ser incorporados por diversos artistas anarcopunks, tais como Annie Anxiety e The Ex. No final da década de 1980, a emergente cultura rave também influenciou o anarcopunk, com a cena de som itinerante, como o Spiral Tribe e o Bedlam Sound System. Outro desdobramento relacionado ao anarcopunk foi a cena britânica mochileiro/crusty, com as bandas Back To The Planet e Radical Dance Faction, que tocava punk reggae/dance-tinged.

Nos anos 2000, o anarcopunk se tornou ainda mais diversificado musicalmente do que fora até então. Além dos mencionados subgêneros, outras manifestações criativas podem ser lembradas, como os irreverentes Bus Station Loonies, os punks do Propagandhi, além do new wave de Honey Bane e bandas de folk punk como Blackbird Raum. Já outras bandas anarcopunk incorporam o rock indie, como foi o caso do Nation of Ulysses, do Blyth Power e do The International (International) Noise Conspiracy. Bandas como Axiom, Destroy e Disrupt fundiram os sons grindcore e crust punk. Também o hardcore eletrônico muitas vezes assume uma postura anarquista em suas letras, como, por exemplo, os pioneiros do gênero Atari Teenage Riot. O hardcore eletrônico mistura vocais punk (e às vezes rap) com elementos de muitos gêneros diferentes, principalmente techno hardcore, thrash metal e noise music.

Ética punk: DIY

Muitas bandas anarcopunk ostentam a ética do do-it-yourself, isto é, faça você mesmo. Um slogan muito popular dos anarcopunks da gringa foi "DIY e não EMI", que simbolizava uma rejeição às grandes gravadoras. Muitas bandas anarcopunk foram lançadas por gravadoras independentes, como a Crass Records e a Resistance Productions, entre 1980 e 1994. Alguns artistas anarcopunk divulgaram seus sons, como era de praxe na cultura punk, através das antigas fitas cassetes. Desta forma, contornou-se as formas tradicionais de gravação e distribuição com gravações sendo amplamente disponibilizadas em troca de fitas virgens e o envio pelo correio. Aos poucos, o movimento anarcopunk foi constituindo sua própria rede de informação, através de fanzines ou zines punks, divulgando notícias, ideias e os trampos da cena. Essas são produções de bricolage, distribuídas gratuitamente. Os zines eram impressos em fotocopiadoras ou máquinas duplicadoras e distribuídos de mão em mão nos shows de punk, em livrarias alternativas ou pelo correio.

Capa de CD

No Brasil

O anarcopunk surgiu no Brasil em São Paulo no ano de 1991, mudando o paradigma da cena punk, como relata Jean Fecaloma, “FECALOMA: 30 ANOS DE PUNK ROCK - ENTREVISTA”, e se espalhou rapidamente por todo Brasil. Muito ativos no meio libertário, a banda de maior destaque foram os Execradores.

Nota 1: Observa-se, no entanto, que os norte-americanos Ramones inventaram o punk rock.

Nota 2: Os Situacionistas foram um movimento surgido na França e que influenciou a insurreição de Maio de 68. Seu maior expoente é Guy Debord, autor do livro Sociedade do Espetáculo.

Posts relacionados:


sábado, 1 de junho de 2019

Variação linguística e neologismo

A linguagem é um sistema de comunicação inerente ao ser humano. Todo ser humano, a princípio, possui condições naturais de comunicação. Mas a linguagem não é apenas um aspecto da constituição natural humana, ela é também produto da cultura, portanto, um fenômeno social e histórico. Neste sentido, os indivíduos que vivem em sociedade, de uma maneira geral, têm competência linguística, isto é, através da fala, são capazes de compreender e serem compreendidos por seus interlocutores.


Todavia, a fala não é uma unidade homogênea. A linguagem pode se manifestar em diferentes níveis que vão desde a diversidade de idiomas até variações linguísticas dentro de um mesmo idioma. Assim sendo, a linguagem pode se revelar como um sistema abstrato de regras, não só gramatical como também semântico e fonológico, de modo extremamente variado e irredutível a uma normatização definitiva.

Dentro de um mesmo idioma, por exemplo, variações linguísticas podem ocorrer em diferentes regiões de um mesmo território nacional ou ainda no âmbito do próprio cotidiano, refletidos pela diferença de gênero, de idade, classe social, ou ainda numa escala espacial relativamente pequena e demarcada pela distinção metropolitana entre centro-periferia etc.

Ou seja, a natureza plástica da linguagem é múltipla e está em constante transformação. Diante disso, desenvolveu-se, geográfica e historicamente, em distintas culturas, uma língua padrão, cristalizada, também chamada de “norma culta”, geralmente advinda dos hábitos linguísticos praticados por grupos sociais dominantes ou socioculturais privilegiados, que, por seu prestígio, foi imposta aos demais grupos sociais como modelo uniforme, único e geral.

O domínio da “norma culta” está no nível da performance e não se confunde com a competência linguística que, como se afirmou acima, diz respeito à capacidade de se comunicar de qualquer ser humano. O uso “correto” de uma língua por uma dita “elite” poder gerar exclusão e preconceito linguístico diante das demais variações linguísticas relacionadas a grupos sociais marginalizados.

Desnecessário entrar em pormenores aqui sobre o quanto a língua padrão é artificial e não acompanha a dinâmica de uma realidade tão heterogênea e contraditória como são as sociedades humanas.

A linguagem coloquial, deste modo, se aproxima muito mais da natureza móvel da língua e está aberta a todo tipo de criações, que vão, com o tempo, configurando-a tanto do ponto de vista fonológico como da sintaxe e da morfologia. Em termos morfológicos, estas mudanças podem ser verificadas através de processos de formação de palavras ou de criação neológica.

Sem dúvida, a criação de neologismo é um fenômeno muito mais comum do que pode parecer num primeiro momento. Contudo, esta criação não é aleatória e independente de paradigmas linguísticos de uma determinada língua. Portanto, o processo de formação de neologismo pode ser compreendido e caracterizado sob uma perspectiva científica nos termos da linguística.